Conformismo, seguidismo, facilitismo – todos estes “ismos” têm um elemento em comum: não os podemos imputar a Julião Sarmento. Decano da arte contemporânea nacional, o artista lisboeta mantém a mesma vitalidade que o tem caracterizado desde que iniciou o seu percurso nos anos 60 e a mesma independência que caracteriza a sua estética única, não se deixando descansar sobre glórias passadas nem reger por modas passageiras. Foi no seu atelier/armazém que o autor da capa da edição de verão 2018 da EPICUR nos recebeu, para uma conversa acerca das suas pulsões criativas, do seu olhar sobre a atual cena artística e sobre alguns dos seus projetos futuros.

Chegando às sete décadas de vida neste ano, Julião Sarmento não pensa em parar. Isso comprovam a multiplicidade de exposições que já decorreram ou que tem programadas para 2018 – desde Mixografia, nos LA Prints de Los Angeles, até Without, projetada para o fim do ano no CGAC Centro Galego de Arte Contemporáneo em Santiago de Compostela -, assim como as várias obras que vimos estarem em curso no seu atelier, demonstrando que a sua voracidade criativa não foi toldada pelo tempo. E foi a propósito do tempo que iniciámos a nossa conversa, ao referir Timeline, a exposição que esteve patente na Fundação Carmona e Costa entre 7 de abril e 19 de maio deste ano e que traça um contínuo entre desenhos por si produzidos num período que vai de 1966 até 2017.

Dada a profusão e riqueza do seu longo legado artístico, perguntamos a Julião Sarmento se esta iniciativa foi motivo para dialogar com o passado, mas o artista adverte-nos: «as pessoas fazem alguma confusão, mas eu não tenho interesse no passado, são os curadores que estabelecem linhas temporais nas exposições» e «quando um curador quer fazer uma retrospetiva numa determinada linha, eu limito-me a facultar as peças». Tanto esta mostra, curada por Delfim Sardo, como, por exemplo, Noites Brancas (retrospetiva de carreira organizada no Museu de Serralves em 2013), afiguraram-se-lhe como oportunidades de divulgação do seu trabalho às pessoas que lhe interessam pelo lado da curiosidade, mas não da vanglória. De resto, Julião diz que fica «contente de rever obras antigas, são extensões minhas, como se fossem meus filhos, de resto sou de futuro e não de passado», sendo que este «só me interessa enquanto boa memória».

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Correndo em paralelo com esta recusa em se refugiar no tempo pretérito está a recorrência de alguns temas na sua obra e que o têm acompanhado desde a sua entrada no universo artístico. Estes são, por exemplo, o desejo ou a feminilidade, que se encontram num erotismo vertiginoso esboçado em narrativas desarmantes e fragmentadas, representadas através daquilo que Delfim Sardo definiria como «signos visuais». Longe de ser uma contradição, a continuidade destes pontos justifica-se, segundo Julião Sarmento, porque «todos nós, no fundo, temos só duas ou três coisas que gostamos obsessivamente de trabalhar» e o que faz é «ir explorando esses temas de variadas formas».

Essa variedade de moldes artísticos tem sido uma das pedras de toque de todo o seu corpus. “Camaleónico” não chega para descrever a sua obra, pois o curioso réptil não faz mais do que mudar a sua pigmentação quando a ocasião exige. “Metamórfico” seria um adjetivo mais adequado – que ainda assim não faz jus à sua contraparte anglo-saxónica, “shapeshifting” – para um corpo de trabalho que vai da pintura ao vídeo, passando pela escultura, o desenho, a colagem ou a fotografia, frequentemente miscigenando estas disciplinas artísticas em técnicas mistas. Não se considerando exclusivamente um pintor, um fotógrafo nem aceitando qualquer outro rótulo, o artista vaticina que «o que interessa é como se utilizam os media», e a escolha das ferramentas «tem tudo a ver como a forma como quero mediar», comparando a execução de um trabalho artístico com a chegada a um destino: «Imagine que quer ir daqui até certo ponto – pode ir a pé, pode ir de carro, de bicicleta, de autocarro, etc… mas o que interessa é que lá chegue».

Se os meios que Julião Sarmento utiliza para materializar as suas ideias variam com frequência, as fontes de inspiração costumam situar-se nos meandros da literatura e do cinema, fornecendo-lhe motes para as suas próprias narrativas. E tal como um bom filme não leva necessariamente a uma boa discussão, tanto quanto uma péssima película pode dar pano para mangas, o artista não recorre necessariamente às suas obras preferidas para trabalhar: «não são os melhores filmes de sempre, isto não é o top do Julião», informando o seu trabalho «o notar de uma particularidade ou pormenor numa certa obra que me interessa explorar». O mesmo se aplica à literatura, como a sua Exposição Dirt de 2008 deixou patente, ao manifestar-se em quadros alusivos a Herberto Hélder, Richard Ford, Samuel Beckett ou Ezra Pound. Quando perguntamos se há um corte entre a apreciação das obras artísticas de que gosta e a sua utilização na sua obra, Julião Sarmento é perentório em afirmar que «não é um corte, é um fluir que existe», rejeitando uma instrumentalização e propondo antes «uma fruição estética, que se torna ainda maior quando aplicada a uma obra de uma forma criativa».

Foi seguindo as suas musas artísticas que o artista lisboeta traçou para si um rumo que o levou a tornar-se numa das mais internacionais figuras da arte contemporânea, sem fazer cedências ao mercado nem ensaiar tentativas de tornar a sua arte mais “acessível”. Aliás, a natureza fragmentada e alérgica ao didatismo da sua obra é fruto da sua própria postura perante a arte: «eu quero fazer perguntas, a mim não me interessa trazer soluções, não me interessa outra forma de arte que não seja essa». A esse espírito independente e desafiador podemos atribuir a sua própria génese enquanto artista. Iniciado no Estado Novo, quando dedicar-se à arte parecia ser sinónimo de optar por um futuro proscrito, Julião Sarmento compara o envolvimento no meio artístico a «entrar no sacerdócio, era como ser um padre, era mesmo por vocação, porque estávamos na pior atividade possível, éramos uns desgraçados, mas queríamos fazer aquilo mesmo». Olhando para trás, Julião lembra-se e partilhar o seu primeiro atelier no último andar do prédio de esquina da Rua Ivens com a Rua Garrett no Chiado – numa altura em que «ninguém queria vir para a baixa» – com um grupo de artistas: «éramos só uns 11, não havia sítios para expor, não havia público, não havia colecionadores, não havia críticos, e, mais importante de tudo, não tínhamos pares, o que era fundamental para aprendermos e formarmos massa crítica».

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Helder, Julião Sarmento, 2008 © Fundação Calouste Gulbenkian

Hoje em dia, Julião Sarmento considera que o panorama é bem distinto, pois «é uma opção profissional». Longe de ser uma situação exclusiva a Portugal, explica que «desde que a arte se tornou numa commodity e se tornou num objeto de bolsa, os artistas, em vez de o serem porque não podiam ser outra coisa, começaram a ser profissionais da arte». Se isto por um lado significa que «há milhões de artistas bons, excelentes, são todos super profissionais, vai-se a uma exposição e não falha nada», o reverso da medalha é que «são espetaculares, mas são todos iguais. São standardizados». Traçando uma comparação epicurista, Julião Sarmento diz que é semelhante ao que aconteceu com Mondavi e a uniformização dos vinhos da Califórnia, preferindo «beber um vinho mais merdoso, pior, mas que tenha caráter, do que ser este standard impecável das coisas».

A consequência última desta profissionalização da arte, defende o artista, é que, fora alguns desalinhados, estes novos atores «daqui a 200 anos desapareceram, ninguém vai saber quem eles são» porque «fazem parte do status quo. O apport que eles trazem para a arte contemporânea é zero». Confrontado com a possibilidade de lhe acontecer o mesmo e ser esquecido nas brumas do tempo, Julião Sarmento diz que não se incomoda «porque nunca vai ser assim. Porque eu não sou um artista standard. Repare, é impossível, não é a minha escola, eu não comecei por isso, eu não sou um artista profissional, sou uma desgraça, nem sou capaz de fazer nada. Eu tenho é ideias! Qualquer jovem artista hoje em dia está 500 vezes mais bem preparado do que eu».

Essa diferenciação estende-se, inclusive, à sua veia de colecionador, prática que sofreu um crescimento exponencial, já que «para aí há 4 anos atrás ninguém falava de colecionadores, agora de repente vai por aí acima, todos os dias há um novo». Todavia, a coleção de Julião Sarmento, não obstante o artista considerar que atualmente «já há coleções fantásticas em Portugal, mil vezes melhores que a minha», destaca-se porque é de artista, «é o olhar de artista sobre os outros artistas». Explica Julião que, não dispondo de meios financeiros avultados, 95% da sua coleção baseia-se em «obras que eu troco com outros artistas, é uma questão de afinidades eletivas, obras que são trocadas de um artista por outro». Isso não faz do seu espólio «melhor nem pior, é diferente», pois a aquisição não se faz desinteressadamente, ou como explica o artista, «não é por acaso que eu tenho determinada obra de um artista e ele tem aquela obra minha! Cada obra que está na minha coleção está por uma razão muito específica».

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Essa questão que Julião Sarmento nos referiu, “afinidades eletivas”, foi justamente o título da exposição que Delfim Sardo organizou em 2015 no Museu da Eletricidade e na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, a partir das mais de 1200 obras que o artista foi colecionando ao longo dos anos. Sendo essa a primeira mostra pública duma coleção de cariz privado, o seu sucesso levou a vários pedidos para que essa divulgação fosse em permanência, de entre os quais do colecionador António Cachola. Conta-nos Julião que ficou «a matutar naquilo e é verdade, porque a arte é uma coisa que é para ser vista e fruída pelas pessoas, não é uma coisa para ser só o luxo de meia dúzia. Eu, como artista, acredito piamente, então pensei como é que ia fazer isto».

A solução foi encontrada junto de Fernando Medina, tendo sido assinado um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa em que Julião Sarmento cederia a sua coleção na totalidade, durante cinco anos, mediante a disponibilização de um espaço para criar um centro e a escolha de um diretor da sua confiança. Para já, o espaço projetado é o Pavilhão Azul, edifício situado junto ao Centro Cultural de Belém e que será intervencionado pelo arquiteto Carrilho da Graça, e o diretor do “futuro” museu será Sérgio Mah. Estas aspas são justificadas, porque segundo Julião, «há mais de um ano que foi assinado o protocolo mas ainda está tudo na mesma», brincando que, dado o crescimento contínuo da coleção, «se calhar quando fizerem o museu já é pequeno demais!».

Entre este projeto a que se viu associado e a proficuidade com que continua a trabalhar e a dedicar-se a coisas novas – incluindo a gravação de uma curta a partir de um conto de James Salter, com quem criou uma grande relação de amizade até à morte deste, mas que teve de ser adiada por falta de meios – não é tão cedo Julião Sarmento irá parar. Como nos disse no início da nossa conversa, só uma coisa lhe interessa: «só olho para o futuro e para o que ainda quero fazer».

Fotografias da autoria de Herberto Smith