O mítico Pap’Açorda reabriu, após ter fechado portas na Rua da Atalaia, onde esteve instalado durante 30 anos. «O Bairro Alto já não é o que era quando o Pap’Açorda abriu», explica João Malta, diretor do restaurante. Para abrir um novo Pap’Açorda, no Mercado da Ribeira, o raciocínio foi: como seria abrir hoje um restaurante com aquele espírito inicial? A resposta foi rápida: um espaço com 150 lugares (em vez dos anteriores 70), mesas sem toalha e com individuais de papel, dois balcões, cozinha tradicional portuguesa de sempre com ideias novas e aberto todo o dia. Quase um mês após a reabertura, João garante: «Se quiser uma cabidela às cinco da tarde, servimo-la.»
O lugar onde agora se serve a cozinha de Manuela Brandão também conta para esta equação que quer atualizar o Pap’Açorda. Das ruas acidentadas do Bairro Alto, agora frequentemente sujas, cheias e barulhentas – queixavam-se disso mesmo os clientes mais fieis – o restaurante dos anos 1980 passa para um espaço amplo no primeiro piso do Mercado da Ribeira. O rés-do-chão é ocupado por food corners selecionados pela revista Time Out Lisboa (o antigo Mercado da Ribeira passou assim a Time Out Market Lisboa de nome oficial) e desde a sua abertura que está cheio dia após dia. É para João Malta o lugar que equivale ao Bairro Alto dos anos 80, trendy e capaz de atrair pessoas de idades diferentes.
«Somos capazes de ter numa mesa um casal de 60 anos a beber whisky e na outra um grupo com 20 ou 30 anos a beber gin, e isso é um grande desafio», diz o diretor sobre as primeiras experiências que se vão vivendo no restaurante que ainda se está a organizar. A equipa teve de crescer radicalmente com a expansão do restaurante – passou para o dobro – e ainda não está concluída. No bar vão-se criando novas receitas para acompanharem o Papadrink e que se querem tão surpreendentes hoje como foi este clássico na altura em que nasceu. Afinal, em Lisboa, não havia muitos (haveria algum?) cocktails que tivessem gelado na sua receita.
A nova carta está grande, com novidades e pratos a entrar e sair com a sua sazonalidade própria. Se se apanhar a canja de rabo de boi com rabanada de Vinho do Porto, é de aproveitar: a fatia de pão molhada em Porto acorda qualquer canja, por mais fraca que seja – e não é o caso desta, bem guarnecida de carne.
Entre os pratos que se estreiam está a empada de cozido, uma ideia óptima e não muito fácil de encontrar, aqui concretizada na forma de tarte (serve-se uma fatia, em vez de uma empada individual); os sabores são essencialmente os das carnes e enchidos e ficam a faltar as couves e o nabo, que para muitos só está no cozido para que se possa pôr de parte. Também nas novidades, o coelho maluco tem sabores intrigantes desde o nome que se lê no menu: “com carqueja e sertão”, duas ervas que o enchem de sabor. Lembre-se também a sopa de mexilhão, uma surpresa pelo aparato que chega à mesa: servida numa pequena ânfora de barro com uma tampa de massa folhada inchada que é preciso furar.
Com a mudança de sítio, os clientes fiéis já fizeram a sua migração e continuam a pedir pratos como o cabrito ou os filetes de peixe galo de olhos fechados. A mousse de chocolate e o seu ritual também se mantêm – desapareceu a colher de pau de outros tempos, mas a tigela de alumínio continua a vir à mesa.
A forma familiar de estar no Pap’Açorda mantém-se, João Malta garante que o restaurante não chegou a fechar e recusa a ideia de que o antigo Pap’Açorda acabou. Funde-se com um fluxo novo que envolverá previsivelmente gente mais jovem e turistas, e as refeições ao longo do dia – dos petiscos variados que se podem pedir ao balcão aos almoços, que antes não existiam. Tudo isto com uma nova vista, desafogada sobre o rio.




